Segunda-feira, 3 de Abril de 2006

E depois?!? Quem é que não gosta de sonhar?... (Versão no feminino)

Ele não percebeu. A revista cor de rosa que ela lia na esplanada era, para ela, nada mais que uma revista a preto e branco, feita de letras coladas umas às outras, a pontuar o branco do papel em linhas regulares, aqui e ali interrompidas pelo espaço entre as palavras. E, o artigo que lia, aparentemente de forma distraída, era o seu primeiro texto publicado, que ela relia pela enésima vez, sem querer acreditar.

Tinha esperado muito por aquilo e, quando ele a encontrou na esplanada, estava a pensar como iria festejar o seu pequeno sucesso.

Quando ele se sentou à sua mesa, nem reparou no seu rosto, porque mais nada existia naquele momento para ela. Mas, enquanto caminhava para casa, tudo lhe recordava que não tinha com quem celebrar.

Todos aqueles a quem tinha mostrado os seus pequenos ensaios, antes daquele, se tinham ficado pelo sentido imediato das palavras, sem compreenderem a forma apaixonada como escolhia cada vocábulo. E, por isso, não lhe apetecia partilhar aquele momento com eles.

Sentiu-o atrás de si, enquanto se afastava, acompanhando o seu caminhar. Costumava mudar de passeio, ou atrasar o passo, para que a pessoa atrás de si passasse para a frente, deixando de a incomodar com a incerteza de ser seguida. Mas naquele dia, sentia-se uma rainha. Afinal, tinha começado a realizar o seu sonho e aquilo merecia uma mudança de atitude. Olhou-se no espelho criado pela montra e achou que, apesar de tudo, não estava assim tão mal. Sentia finalmente, confiança nela própria. Com mais um olhar ao espelho improvisado, ajeitou o cabelo e virou-se para o desconhecido.

Aquela frase feita funcionava quase sempre: “Não nos conhecemos de qualquer lado?” e ela atirou-lha, decidida a tudo. Ele respondeu que a conhecia da mesa da esplanada onde se tinha sentado junto a ela e, juntos, continuaram a caminhar. Falou-lhe da curiosidade que tinha por vê-la tão embrenhada naquela revista, por ter notado que lia e relia o mesmo artigo, vezes sem conta. Tinha estado dentro do café, noutra mesa, a observá-la, e ao sorriso feliz que fazia quando chegava mesmo a cheirar e acariciar aquelas páginas. Ela contou-lhe que tinha realizado um sonho e que estava feliz, como estava feliz.

Quando deram por isso, estavam à porta de casa dela. E, novamente decidida a tudo, com a confiança no auge, convidou-o a subir. Abriu uma garrafa de vinho que estava a guardar para um momento especial e, ao passar-lhe o copo, os seus dedos tocaram ao de leve nos dele. Há muito tempo que não sentia um arrepio assim, uma empatia tão grande de pele com pele. Aparentemente, ele sentiu o mesmo, porque pousou o copo, olhou-a com uma expressão inequívoca e beijou-a, primeiro ao de leve, depois fervorosamente, ao sentir que ela o desejava.

Sem qualquer receio, ela começou a despi-lo, primeiro a camisa, botão a botão, depois o cinto e as calças, enquanto o arrastava para o sofá. Não havia tempo a perder, tinha passado demasiados anos sozinha, a esperar por um momento assim.

Tinha imaginado tudo, previsto, calculados os gestos vezes sem conta e, no entanto, nunca tinha tido a coragem de partir para a acção. Só agora, depois do seu pequeno sucesso, se sentia capaz de realizar aquele outro sonho.

Nua, também, depois de ele lhe ter arrancado a roupa, sentou-se em cima dele e ofereceu-se-lhe, ansiando por pelo prazer que tanto tinha demorado a chegar à sua vida. Uma vez e outra e outra, entregaram-se, sem vontade de que aquele momento terminasse.

Adormeceram abraçados, já na cama. Ela acordou de madrugada e, de pé à porta do quarto, ficou a observá-lo, enquanto se abraçava a ela própria como tantas vezes tinha feito.

Que dia aquele, tão cheio de coisas boas. Tinha renascido para a vida, e estava no momento de a agarrar com todas as forças. Tomou banho, vestiu-se e bebeu o copo de leite do costume. Depois, procurou um papel e uma caneta, já não estava habituada a escrever à mão, e deixou-lhe um pequeno recado, antes de sair.
“Gostei de sonhar contigo”.

 

Rosmaninho

publicado por McClaymore às 12:05
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1 comentário:
De Uxka a 5 de Abril de 2006 às 02:25
O martini e a azeitona, o cigarro e o sexo, o côncavo e o convexo... ele há coisas que casam mesmo bem. Parabéns aos dois!

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